Testemunho sobre vocação

20/08/2020

"... pois teu esposo é o teu Criador: chama-se o Senhor dos exércitos"

                                                                                          (Isaías 54, 5a)

Esta Palavra me deu o Senhor quando, com meus vinte e poucos anos, no intervalo de um retiro de carnaval fui para a Capela disposta a saber qual era a vontade Dele com relação ao meu estado de vida... Confesso que não era o que eu queria ouvir naquele momento! Arregalei os olhos e estatelei. Voltei para o retiro em silêncio, fiquei lá atrás, tentando digerir a Palavra que Ele me havia dado depois que perguntei o que Ele queria pra mim. Não é difícil imaginar que entrei em prantos. Ninguém entendia o que estava acontecendo e eu estava ali a chorar e chorar.

Guardei aquela Palavra por anos e aquele momento também. Não contei pra ninguém. Eu não acreditava naquela vontade de Deus para minha vida. Não conseguia nem pensar muito de tão difícil que era... tinha o meu sonho de casamento com a pessoa que o meu Deus havia reservado para mim! E continuava a esperar que o meu "príncipe", aquela pessoa que seria preparada por Deus, iria aparecer! Eu passei a fugir dos retiros da Comunidade em Agosto, afinal é o mês das vocações e sempre tinha oração neste sentido... o medo de ouvir alguma revelação acerca do chamado ao celibato era enorme!

O tempo passou e engavetei tudo isso... procurei esquecer.

Quando ingressei na Comunidade já havia tido a experiência do namoro. Durante a caminhada rumo à consagração conheci algumas pessoas que balançaram meu coração. Mas na Comunidade o processo do namoro era diferente. Havia todo um cuidado de discernimento antes de o namoro iniciar. O formador acompanhava, orava, se o Senhor permitisse ainda tinha um tempo de conhecimento um do outro, de espera. Não era fácil, mas totalmente frutuoso, pois provava o amor e fortalecia a decisão no coração dos dois. Da primeira vez o Senhor não liberou e foi bem difícil. Hoje entendo completamente o porquê. O outro discernimento (tempos depois) foi permitido pelo Senhor e hoje pela graça de Deus também entendo o porquê. Namoramos 1 ano e 2 meses até que no devido tempo o Senhor separou. Depois deste término fui começando a sentir um frio na barriga, pois começou a "cair a ficha" de que Jesus tinha outros planos para minha vida. Algumas semanas depois do término presenciei um milagre na Capela do Santíssimo da Paróquia Nossa Senhora de Fátima em Pendotiba. Uma amiga que tinha a mão atrofiada há pelo menos 5 anos recobrou os movimentos da mão e a sensibilidade durante um momento em que estávamos orando diante do Sacrário. Foi uma extraordinária manifestação do amor de Deus. Depois disso comecei a dar alguma abertura de coração. Porém com altos e baixos. Lembro-me de momentos em que eu voltava do trabalho discutindo seriamente com Deus perguntando por que Ele deixava todas as minhas amigas se casarem, terem uma vida normal e a mim Ele não deixava. Foram muitas brigas. Ao mesmo tempo em que brigava com Deus por conta disso eu passava por alguns constrangimentos no trabalho... ora precisava fugir de alguma situação, ora tinha que ouvir coisas do tipo: "Menina bonita sem namorado... só pode ter algum problema!".

Em 2010 quando entrei na Comunidade de Vida disse para mim mesma que ia fazer a experiência do celibato, mas somente uma experiência, não era nada definitivo. Foi dessa forma que eu falava comigo mesma para poder conseguir dar o passo do momento. E foi ali na Comunidade de Vida, num ritmo de oração mais intenso, de disciplina e de entrega maior a Deus que Ele foi conquistando o meu coração. E aquela ansiedade de encontrar o "meu príncipe", a pessoa certa, foi passando. A minha alma foi sendo saciada de tal maneira que aquela busca anterior terminou. Eu havia encontrado o "Príncipe da Paz".

Como seria bom se todos que sentem de alguma forma este chamado em seu interior pudessem fazer esta experiência libertadora. Deus não força ninguém a nada, Ele nos dá a liberdade e Ele sabe da nossa vida, da nossa história e do processo necessário a cada um. Mas preciso dizer: - Não tenham medo de fazer a experiência, de tentar!

Ele vai dando toda a graça ao longo do caminho! E à medida que a nossa afetividade vai sendo curada vai ficando tudo mais fácil.

Ao mesmo tempo não posso dizer que o caminho é somente de flores. Não, não é assim. Não há nada que possa gerar tanta fúria no inimigo de Deus quanto uma alma que deseja consagrar sua virgindade ao Senhor, se fazer "eunuco por amor do Reino dos Céus" (Mt 19,12). Ainda mais num tempo em que a impureza e a busca pelo prazer a qualquer custo imperam.

Desafios, tentações, dúvidas nos esperam ao longo da caminhada... Pude perceber que é preciso não apenas rezar, mas vigiar sempre, evitar qualquer brecha inicial porque de uma pequena brecha o inimigo pode lançar uma grande armadilha. Constatei ao longo do trajeto a graça que é a consagração diária a Nossa Senhora e a intimidade com o Anjo da Guarda. Foram muitos os momentos em que eles intervieram quando eu sozinha não conseguia.

Deus é tão bom que é capaz de sempre tirar coisas maravilhosas dos momentos de baixa. Todo o auxílio do Céu que tive, as intervenções de Nossa Senhora, do meu Anjo, incluindo também os avisos de Santa Filomena me levaram a sentir-me tão amada pelo Céu e a não ter mais dúvida com relação ao meu estado de vida.

Hoje posso dizer que a minha decisão é mais madura. Sei que não posso "baixar a guarda", pois a luta será até o fim da vida e não quero desagradar ao meu Jesus. Tê-Lo como único bem dá um sentido pleno a minha vida. Aproveito para pedir a você que está lendo este texto que reze uma Ave Maria por mim, pois desejo do fundo do meu coração consagrar a minha virgindade ao Senhor perante a Igreja e quero ser fiel.

Aprecio a vocação matrimonial dos meus irmãos à volta, mas hoje vejo que Deus escolheu simplesmente o melhor para mim - a antecipação na Terra do que todos viveremos no Céu, um eterno casamento com o esposo de nossas almas - e não troco por nada o meu estado de vida!

Camilla Telles Albuquerque