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Camilla Telles Albuquerque


Camilla

A misericórdia de Deus na minha vida


Conheci a comunidade Eis o Cordeiro de Deus desde o seu início atra-vés do Grupo de Oração Imacu-lada Conceição, que frequentava com certa regularidade. Participava ativamente nas pastorais e movi-mentos da paróquia de Pendotiba, onde morava, mas também participava esporadicamente dos retiros e eventos da comunidade, até que fui sentindo o carisma de restauração gritando dentro de mim. Lembro-me que naquele ano de 2004 o Senhor havia me cercado de todas as formas para que escrevesse a carta indicando meu desejo de entrada como membro da comunidade e, enfim, ingressasse no caminho rumo à consagração ao carisma Eis o Cordeiro de Deus.


Tinha muita resistência, pois além de ter os compromissos na paróquia nos finais de semana (catequese e movimento de jovens) eu cursava engenharia de telecomunicações na UFF, em tempo integral, um curso que exigia muito estudo e, além disso, eu já estagiava na época. Sabia que para trilhar um caminho rumo à consagração deveria ir às formações durante a semana e teria uma série de outros compromissos diários. O Senhor me seduziu e eu me deixei seduzir, como Ele mesmo me falou através do livro de Jeremias e ingressei no caminho para a consagração em 2005.


Como já esperava, o Senhor foi me pedindo maior dedicação. Porém, ao chegar nos últimos períodos da faculdade, elaborando o projeto final de curso e já trabalhando, não consegui conciliar as atividades com os compromissos exigidos para uma pessoa que deseja realmente se consagrar ao Senhor. Com a minha cabeça da época, fiz então um “trato” com Jesus, pedindo que Ele me deixasse parar por um tempo a caminhada rumo à consagração até que me formasse. Depois que terminasse eu voltaria para o caminho. Assim eu tentei fazer, embora não tenha conseguido ficar distante da maioria das atividades da comunidade.


Terminei o curso em 2008 e reingressei no caminho de consagração. Trabalhava efetivamente numa empresa de Telefonia Celular, tinha a minha independência financeira, já fazia planos de comprar meu carro, viajar e etc.


Para minha surpresa, alguns meses depois de formada minha vida foi ficando vazia do jeito que estava. Eu gostava muito do meu trabalho, mas comecei a perceber que o que eu vivia não preenchia a minha alma. Comecei a perceber que, no fundo, sentia uma ânsia maior de Deus, um desejo de dar mais de mim a Ele, mas minha rotina não permitia essa entrega maior. Fingia não entender este sentimento, protelando, deixando o tempo passar. Até que comecei a não escutar mais o Senhor diariamente, como antes escutava, nas minhas orações e ao longo do dia. Iniciou-se um período de deserto, algo muito estranho. E comecei a murmurar, a reclamar com Deus porque Ele não falava mais comigo.


Certo dia, entrando em meu quarto, o Espírito Santo me impeliu a me ajoelhar. A luz ainda estava apagada e, naquela escuridão, tive uma visualização do Senhor Jesus Crucificado, todo Chagado que ia se distanciando de mim. Eu via os meus braços estendidos em direção a Ele, querendo tocá-Lo, encontrá-Lo, senti-Lo, mas o Senhor se distanciava cada vez mais e comecei a sentir uma sensação horrível, que não desejo a ninguém. Era uma angústia muito forte, uma sensação de “ausência de Deus”, uma aflição de nunca mais poder sentir a presença de Deus, sentir o Seu amor, ouvi-Lo, entrar em intimidade com Ele. E eu chorava muito. Aquela angústia, que não sei descrever direito, era terrível.


De repente, comecei a visualizar vários momentos da minha vida e a escutar o Senhor falando que desde muito tempo Ele falava comigo, quantas e quantas vezes Ele havia demonstrado de maneira tão explícita o Seu amor, o quanto Ele me permitia desde criança a ter intimidade com Ele e há quanto tempo Ele me chamava a segui-Lo mais de perto e eu não fazia a Sua vontade. Eu reclamava por não escutá-lo e senti-lo, mas já havia muito tempo que Ele falava comigo e eu não dava o passo que Ele pedia. Não tenho ideia do quanto durou aquele momento. Perdi a noção do tempo... Sei que fiquei atônita, quase desfalecida.


Na 2ª feira seguinte, no grupo de oração, procurei logo a minha formadora para contar o que havia acontecido. Ela me ouviu e em seguida falou-me que durante um daqueles dias, enquanto estava na cozinha, o Senhor havia colocado para ela que eu corria risco de perder a salvação e havia dado a passagem da Bíblia do Jovem Rico. Na mesma semana uma amiga da paróquia que eu frequentava, que busca muito a santidade, rezando por mim escutou também de Jesus a mesma passagem, em que Jesus diz ao jovem: “Ainda te falta uma coisa: vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me!” (Lc 18, 22). Ao ouvir tais palavras o jovem se entristece e vai embora, pois possuía muitos bens.


A partir daquele momento me rendi ao Senhor e comecei a fazer experiência para a fraternidade de vida. Ia aos finais de semana para lá e procurava vivenciar com os meus irmãos que já moravam lá as atividades, as orações, os trabalhos...


Tudo aquilo que o Senhor me pedia para viver aos meus olhos humanos parecia impossível, até mesmo porque, além de eu já estar acostumada com a minha independência financeira, ao mesmo tempo eu descobria que Jesus também me chamava à vida celibatária!


Os meses de experiência foram passando e eu já sentia a iminência do chamado do Senhor a largar tudo, mas ficava quietinha. Até que o Espírito soprou para Angela, em dezembro de 2009, a minha data de entrada na fraternidade: 25 de março do ano seguinte, festa da Anunciação do Anjo Gabriel à Virgem Maria.


Os dois meses antes de largar o emprego foram muito difíceis. Justamente na época em que faria o aviso prévio para sair do emprego surgiu uma oportunidade de trabalho em uma empresa concorrente, em que teria um aumento considerável de salário, em uma área semelhante à minha e no final do ano receberia uma participação nos resultados da empresa muito maior. Resisti chorando e neguei a oportunidade. Quando conversei com o meu coordenador e fiz o aviso prévio na própria empresa em que trabalhava ele não acreditou, me pediu para pensar durante o final de semana, depois na semana seguinte e pediu para eu ver o quanto queria de aumento . Enfim, foi muito difícil... Sem mencionar outras tentações que apareceram naquela época e que poderiam preencher muitas outras linhas.


“Que loucura!” as pessoas diziam e até eu mesma pensava. Mas não havia como negar, nem duvidar de que aquela era a vontade de Deus para a minha vida. Não é fácil seguir o Cordeiro mais de perto! Ainda hoje, 1 ano e meio após a entrada na comunidade de vida, já consagrada, vejo o quanto ainda tenho bens a dar e o quanto ainda preciso sair de mim. Entretanto, também vejo o quanto tenho um Pai amoroso e misericordioso, que zela pela minha salvação. Tirou-me do mundo, separou-me para sair do meu egoísmo, para viver uma vida de doação, porque me quer junto Dele.


É muito amor e misericórdia deste nosso tão amável Pai do Céu! Este carisma tão maravilhoso de restauração, através principalmente da minha mãe espiritual, tem me mostrado muitas coisas que preciso mudar, que antes não via e outras que percebia, mas às quais não dava tanta importância. Hoje vejo não somente a importância, mas a necessidade de me esforçar em muitos pontos, de buscar intensamente o exercício de muitas virtudes para alcançar, pela graça de Deus, o Céu. E posso dizer com todo o meu coração: como é bom depender da Providência Divina, estar nos braços do Pai, dar a Ele o comando da minha vida e poder ser usada por Ele nas missões de evangelização.


Não quero ser como aquele jovem rico que apegado aos seus bens negou o chamado de Jesus. Quero ser como Pedro, que logo em seguida nesta mesma passagem bíblica (Lc 18, 28-30) diz: “Vê, nós abandonamos tudo e te seguimos.” e ouve do Senhor: “Em verdade vos declaro: ninguém há que tenha abandonado, por amor do Reino de Deus, sua casa, sua mulher, seus irmãos, seus pais ou seus filhos, que não receba muito mais neste mundo e no mundo vindouro a vida eterna.”.




Publicado no jornal Comunicando em novembro de 2011


 

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