
Publicado no jornal Comunicando em julho de 2011
Dom Roberto Francisco Ferreria Paz nasceu em Montevidéu, capital do Uruguai e veio para o Brasil aos 7 anos. Aos 11 anos, voltou para o Uruguai e retornou ao Brasil já com 30 anos. Seu nome é inspirado nos santos Roberto Belarmino e Francisco de Assis. Foi ordenado sacerdote na Arquidiocese de Porto Alegre em 1989 e em 2008 foi sagrado bispo para atuar como auxiliar na Arquidiocese de Niterói. No próximo dia 30 de julho, Dom Roberto tomará posse como bispo titular da Diocese de Campos.
Como o senhor avalia este período que passou na arquidiocese de Niterói?
Olha, foi um período realmente de lua de mel, digamos assim do episcopado. Fui muito bem acolhido, meu trabalho realmente me formou, me edificou e penso também que tenha colaborado com a arquidiocese desenvolvendo áreas de atuação que, digamos, não estavam suficientemente fortalecidas ou expandidas. Por exemplo: o trabalho de articulação das novas comunidades, o trabalho com os políticos, a cultura, enfim o laicato e mesmo a minha presença em São Gonçalo e outros vicariatos. Penso que foi muito frutuoso para mim e também quero acreditar que rendeu frutos para a arquidiocese como um todo.
E agora quais são as expectativas diante da nomeação como bispo da diocese de Campos?
Bom, são grandes desafios que eu vou encontrar em Campos. Tem evidentemente muita potencialidade, é uma Igreja que tem mais de 50 paróquias, tem um clero jovem, dinâmico, um laicato já bem formado... Mas Campos se encontra em uma fase de crescimento e de transformações muito sérias, muito rápidas, evidentemente ocasionadas pelo petróleo da Bacia de Campos. Pela migração de pessoas está se tornando um pólo de conhecimento, então deve se intensificar o diálogo com a sociedade civil, deve aprimorar-se a formação, especialmente no sentido da iniciação à vida cristã e o próprio, digamos, congraçamento com as outras identidades religiosas, em especial as igrejas cristãs presentes em Campos, que são muitas.
O senhor é considerado na arquidiocese de Niterói como um pai para as novas comunidades. Qual a visão que o senhor tem em relação a elas?
Bom, posso dar primeiro a visão que a CNBB tem e depois particularmente a minha. As novas comunidades surgem de uma necessidade de ter uma fé vivida no contexto comunitário. É uma reação ante a massificação da cidade. Elas surgem junto a muitas pequenas comunidades também que são o novo contexto onde surge a fé na cidade. Em segundo lugar, surge também um movimento que nós podemos chamar carismático ou pentecostal, em geral como uma ânsia de aprofundar a espiritualidade, que é o sinal dos tempos. É o tempo do Espírito Santo. Em terceiro lugar me parece também que elas vêm completar ou complementar a paróquia. A paróquia que desde (a Conferência Episcopal de) Santo Domingo deve tornar-se rede de comunidades. É sinal que a paróquia é necessária, mas é insuficiente e por isso precisa da experiência das pequenas comunidades e das novas comunidades.
E o senhor já pode apontar frutos que tenham vindo a partir das novas comunidades na arquidiocese de Niterói?
Sim, posso dizer que elas proporcionam o resgate de muitas pessoas que estavam afastadas e uma reconversão de pessoas que tinham ido para as religiões afrobrasileiras. Também para muitos jovens, porque elas têm grande poder de convocação para os jovens, têm sido uma experiência de agregação. Também um aspecto que ainda não está bem definido é a miscigenação do que é comunidade de vida e comunidade de aliança, isto é, o convívio com estas duas realidades que está recentemente se cristalizando em estatuto. Há necessidade de se formatar esta nova experiência, porque se fala de celibato, de consagração, mas em algumas comunidades não se vê bem este projeto de vida, então precisa de um pouco mais de definição. Mas isto é, digamos, normal, pelo inédito delas, por terem pouca história.
O senhor acha que atualmente os católicos adquiriram uma nova consciência política ou ainda é muito cedo para falar isso?
Eu diria que não só os católicos, mas os cristãos tomaram consciência de que devem interferir no processo eleitoral colocando bandeiras que os políticos ou traem ou não levam a sério. Bandeiras como a defesa da vida, a defesa da família, a defesa da honestidade e integridade na política... Isso realmente se abandonou, há uma política muito fisiológica em torno a interesses e houve uma reação nesta última eleição colocando justamente a defesa destas bandeiras que são, podemos dizer, bíblicas, evangélicas, que são da Igreja Católica também.
Como o senhor vê a Igreja no contexto histórico atual diante do crescimento do relativismo, do laicismo e outras questões que se apresentam?
Bom, primeiro uma leitura de fé. Eu acredito que a Igreja é essencialmente divina, então por mais desafios que ela enfrente ela é dirigida pelo Espírito Santo. Por mais que existam problemas, turbulências, nada será capaz de vencê-la. No entanto, a Igreja deve conquistar as novas gerações, não ficar relegada num gueto, não ficar apequenada. Então penso que é um momento de responder primeiro com a unidade, nós não podemos nos fragmentar. O mundo apresenta hoje, como você colocou, o relativismo, uma tendência à dissolução, à fragmentação. A Igreja não. A Igreja deve mostrar a comunhão da fé, a comunhão do amor. Comunhão com Deus especialmente, a transcendência. Em segundo lugar a reformatação da Igreja como uma comunidade de fé na qual já não temos uma identidade por conservação de uma tradição, mas à qual a gente tem que se converter aderindo, então isso requisita uma pastoral de iniciação à vida cristã como era nos primeiros séculos. Requisita também uma presença pública profética que desafie esse esboroamento dos valores, essa corrupção e eu diria até essa aniquilação da pessoa humana que vemos na sociedade contemporânea.
Qual o papel dos meios de comunicação social diante destes desafios da Igreja?
Nesta assembléia (dos bispos) em Aparecida, a 49ª, nos foi entregue já em forma de documento ainda não aprovado, o que seria o diretório da comunicação. Nele está clara a importância da comunicação em todas as dimensões da Igreja. A Igreja hoje tem uma seara grandíssima que é a internet, que é a mídia. Se ela não consegue se comunicar ela fica relegada ou marginalizada. E o evangelho é para ser pregado, como diz muito bem Paulo, nos tetos e nas praças e atingindo os novos areópagos. Entre esses novos areópagos está o que se chamam novos espaços, o espaço da comunicação, da internet é fundamental.
Qual a importância que o senhor vê na participação do leigo nos dias de hoje na Igreja?
É fundamental. É o momento do protagonismo dos leigos. Mesmo porque são os leigos que estão no mundo e podem evangelizar as correntes de pensamento, as tendências... Os sacerdotes, os clérigos estão mais para a formação dos leigos e o governo da própria Igreja, mas no mundo mesmo, inseridos no mundo são os leigos. E cada vez mais é necessário chegar a realidades, a espaços que sem os leigos não chegaríamos. Então eu penso que a partir já de Santo Domingo e agora mais em Aparecida se reforçou muito o papel, a missão. Claro que para isso tem que se formar bem o leigo e isso é um grande desafio.
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