
Publicado no jornal Comunicando em abril de 2011

Neste mês de abril, a Igreja revive os momentos cruciais da vida de Jesus. A Semana Santa é um período cheio de significados para os cristãos, pois nela a missão de Jesus atinge seu ponto máximo e revela o amor apaixonado de Deus pela humanidade. Diante do sofrimento que sabia que teria que enfrentar, o coração humano de Jesus se perturba e recorre ao Pai em oração dizendo: “Agora estou muito perturbado. E o que vou dizer? Pai, livra-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim” (Jo 12, 27). Esta passagem revela o sentido último da encarnação do Verbo: a declaração do amor infinito de Deus que veio libertar os homens dos seus pecados.
Todas as pregações, todas as palavras de Jesus tiveram em última análise a intenção de ensinar os homens a amar. Isto fica bem claro quando Jesus resume os mandamentos no amor a Deus, ao próximo e a si mesmo: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu espírito; e a teu próximo como a ti mesmo” (cf Mt 22, 37-40). No entanto, o amor de Deus vai além das palavras e Ele quis deixar isso bem claro entregando-se à angústia, ao escárnio e ao sofrimento.
A angústia de Jesus ao aproximar-se a hora de sua paixão não diminui o seu valor, mas ao contrário, o aumenta, pois expõe sua fragilidade enquanto homem e mostra o quanto foi difícil para Ele suportar os sofrimentos a que foi submetido. Revela também que o amor que Ele tem pelos homens é superior a qualquer sentimento ou pensamento que o perturbasse, pois, como é Deus, poderia ter se livrado facilmente deles, mas quis “beber até o fim do cálice que o Pai lhe deu” (cf Jo 18, 11). Não poderia haver dor maior nesta Terra que a de um inocente condenado injustamente por aqueles que amava, estando sozinho, abandonado, e sendo negado e traído por seus amigos mais próximos. O próprio Deus que se despojou da sua condição divina para se fazer homem e teve de enfrentar as dificuldades próprias da condição humana desde a sua concepção chegou ao auge da dor que um ser humano poderia suportar. Além da injustiça, do desprezo, da traição e do abandono, teve que enfrentar os flagelos físicos e a pena de morte mais cruel que existe: a crucificação.
Jesus bem que poderia ter descido da cruz, como alguns dos que assistiam os seus tormentos sugeriram ou ainda ter mandado que descesse fogo do céu sobre os responsáveis por aqueles atos tão desumanos. Se os apóstolos Tiago e João haviam desejado fazer isso à cidade que não o acolheu (cf Lc 9, 54), Ele teria muito mais razão para fazê-lo naquele momento. Mas a resposta de amor de Deus vai além de toda compreensão humana. Em vez disso, Jesus suplica: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34) e não deixa que o desamor de seus algozes vença o amor que tem por cada um deles. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (cf Jo 13, 1).
E seu sacrifício não foi apenas por aqueles que encontravam-se naquele momento à sua volta, mas também por cada um de nós que o traímos, o negamos, o abandonamos e desprezamos tantas vezes em nossas vidas. Que tantas vezes preferimos o pecado ao amor de Deus, o ódio ao perdão, a morte à vida. Diante de Jesus estavam todos os pecados da humanidade e todas as traições que ainda haveria de sofrer. Mesmo assim Ele nos amou e bebeu o cálice até o fim.
Mas como a morte não poderia vencer o autor da vida, Jesus ressuscitou e libertou todos os homens das trevas. Como Ele havia dito: “se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto” (Jo 12, 24). Assim sua morte trouxe a salvação para toda a humanidade e a vitória sobre o pecado e a morte. “Passou o que era velho, eis que tudo se fez novo!” (2Cor 5, 17). Completou sua missão redentora demonstrando que a força do amor é superior a qualquer outra e que a vitória é daqueles que amam, mesmo que para isso seja preciso sofrer.
Aluisio Peixoto, consagrado
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