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...Padeceu sob Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto e sepultado...

Publicado no jornal Comunicando em abril de 2011


Jesus e Pilatos

O mistério pascal da cruz e ressurreição de Cristo está no centro da Boa Nova que a Igreja deve anunciar ao mundo. Por meio da morte redentora de Jesus o projeto divino da salvação realizou-se de uma vez por todas. As profecias reveladas desde a queda de Adão e Eva até a pregação de João Batista encontraram seu pleno cumprimento na pessoa do Cristo, o Cordeiro de Deus que veio tirar o pecado do mundo assumindo em sua própria carne as consequências dos pecados da humanidade.


A pregação e as atitudes de Jesus incomodaram desde o início os adeptos do rei Herodes com alguns fariseus, sacerdotes e escribas, que passaram a tramar a sua morte. A Bíblia cita em diversas passagens esta intenção, como, por exemplo, quando Ele expulsou os vendilhões do templo (cf Mc 11, 15-18). Foi acusado de blasfemo e de falso profetismo, crimes que segundo a Lei dos fariseus deveriam ser punidos com apedrejamento. Some-se a isso o fato de que Jesus pregava o aperfeiçoamento da interpretação da Lei de Moisés, que estava sob a “guarda” dos escribas e fariseus que muitas vezes a tornavam um fardo e não uma fonte de libertação.


Jesus escandalizou os fariseus ao comer com os chamados “pecadores públicos” da mesma forma que comia com eles e ao revelar-lhes seus pecados. Escandalizou-os mais ainda ao identificar sua conduta misericordiosa com a conduta do próprio Deus, especialmente ao perdoar os pecados, pois Deus é o único capaz de perdoar os pecados. Isto equivalia a uma declaração de que Jesus era o próprio Deus e isto não foi bem aceito pelos fariseus. Embora conhecedores das Escrituras, eles não conseguiam alcançar a grandeza da identidade de Jesus, estando presos a conceitos humanos e a interpretações equivocadas das profecias.


As autoridades religiosas de Jerusalém, no entanto, não foram unânimes quanto à forma de proceder com relação a Jesus. Muitos inclusive acreditavam nele de forma velada, como diz São João em seu Evangelho (cf Jo 12, 42). Os anciãos judeus que compunham a assembleia conhecida como Sinédrio declararam Jesus passível de morte, mas como não tinham poder para decretar sua morte devido à dominação romana da Palestina, deturparam suas palavras para acusá-lo de revolta política e por meio de ameaças levam Pilatos a autorizar a sua morte.


A morte violenta de Jesus não foi obra do acaso gerada pelas circunstâncias, mas fazia parte do projeto de Deus, anunciado antecipadamente nas Escrituras. Este anúncio se faz de maneira especial no livro de Isaías, que apresenta a figura do “servo sofredor” (cf Is 53). Desta forma, pôde demonstrar o verdadeiro horror que é o pecado e o quanto ele desfigura a verdadeira imagem criada por Deus para os homens. São Paulo afirma na segunda carta aos Coríntios: “Aquele que não conheceu o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornássemos justiça de Deus” (2Cor 5,21).


“Ao entregar seu próprio Filho pelos nossos pecados, Deus manifesta que o seu desígnio sobre nós é um desígnio de amor benevolente, que antecede a qualquer mérito nosso” (CIC 604). Não é uma resposta ao amor humano, pois “Ele nos amou primeiro” (cf IJo 4,10), mas é um dom gratuito e desinteressado de um Deus que “morreu por nós quando ainda éramos pecadores” (cf Rm 5, 8). É um amor que não exclui ninguém, mas deseja que todos se salvem e lhes oferece esta oportunidade.


Durante a última ceia, Jesus expressou de modo supremo a oferta livre de si mesmo, já antecipando os frutos de sua paixão e ofereceu seu corpo e sangue aos apóstolos, instituindo assim a Eucaristia e confiando a eles o poder de realizar este gesto em sua memória. Cristo, por sua morte, realizou o sacrifício único e definitivo que apagou os pecados do mundo e reconduziu o homem à comunhão com Deus. Supera a todos os sacrifícios, pois é um dom do Pai que entrega o seu Filho e oferta do Filho que se doa livremente ao Pai pelo Espírito Santo para reparar a desobediência dos homens.


Nenhum homem, por mais santo que fosse, poderia oferecer-se em sacrifício por todos. A existência da pessoa divina do Filho em Jesus Cristo, que supera e abraça todos os seres humanos tornou possível o sacrifício redentor por todos. E ainda oferece a todos os homens a possibilidade de associarem-se ao mistério pascal “tomando sua cruz e seguindo-o” (cf Mt 16, 24).


Deus dispôs que seu Filho não apenas morresse para a remissão dos pecados, mas que “provasse a morte”, ou seja, conhecesse o estado de separação entre sua alma e seu corpo no período entre o momento que expirou na cruz e o momento que ressuscitou. Os cristãos, por meio do batismo, morrem ao pecado com Cristo em vista de uma vida nova. São “sepultados” com Cristo na morte para viver uma vida nova (cf Rm 6, 4).


Aluisio Peixoto, consagrado



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