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O Rosto Humano de Deus

Publicado no jornal Comunicando em dezembro de 2011


Jesus, Maria e José

Neste mês celebramos o nascimento de Jesus, o Deus que assumiu a condição humana e veio habitar junto a nós, fazendo em tudo a vontade do Pai. Olhando para Ele, podemos contemplar o homem pleno e assim entender o desejo de Deus para cada um de nós desde a criação da humanidade. Jesus é o modelo perfeito, santo e imaculado que devemos imitar para sermos aquilo que devemos ser.


É interessante notar que quando o Eterno entra no tempo Ele submete-se também às limitações próprias da condição e do ambiente em que está inserido. Como está escrito na carta de São Paulo aos Filipenses: “não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas esvaziou-se a si mesmo assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens” (Fl 2, 6-7). Desta forma mostrou-nos como devemos nos relacionar com o Pai e com o próximo.


Jesus revela para nós o rosto humano de Deus. Para isso fez-se dependente do “sim” de uma mulher e de seus cuidados. O Menino-Deus precisou ser nutrido por Nossa Senhora desde a concepção em seu seio virginal até que estivesse suficientemente crescido para fazê-lo sozinho. Precisou da proteção de São José contra as investidas de Herodes e os demais perigos a que esteve submetido e do seu exemplo como homem trabalhador e temente a Deus. Certamente também teve amigos e parentes com quem brincava e conversava para poder se desenvolver e crescer “em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lc2, 52). É intrigante pensar que o Onipotente torna-se dependente, o Onisciente precisa aprender, o Onipresente encontra-se limitado a um determinado espaço em um tempo específico.


Jesus, sendo o próprio amor, não recusou nenhuma demonstração de afeto daqueles que o cercavam. Desde a sua infância, como vimos acima, até sua morte e ressurreição, como podemos observar nos relatos evangélicos. Quando uma mulher pecadora lava seus pés com um perfume caro, apesar das críticas de alguns dos presentes ele a defende e acolhe o gesto como uma demonstração de amor (cf Lc 7, 36-47). Ele também não recusava os convites dos cobradores de impostos para sentar-se à mesa e partilhar com eles uma refeição (cf Mt 9, 10-13). Na última ceia permitiu que seu grande amigo e apóstolo João reclinasse a cabeça sobre seu peito e ouvisse o seu coração (cf Jo 13, 23). Mesmo no alto da cruz, totalmente dilacerado física e emocionalmente ainda encontra forças para acolher o reconhecimento do ladrão arrependido e confortá-lo com a promessa do paraíso. Quanto consolo deve ter levado ao coração de Jesus em meio a tanta perversidade encontrar alguém que acreditava em sua misericórdia e lhe suplicava que se lembrasse dele ao entrar em sua glória enquanto tantos outros escarneciam de suas promessas e de seu sacrifício (cf Lc 23, 39-43).


Jesus nos convida a experimentar mesmo os pequenos gestos de amor dos nossos irmãos como demonstrações do amor de Deus e enxergar neles as virtudes do seu Sagrado Coração. Muitas vezes nossas feridas nos impedem de aceitar estas demonstrações e nos levam a buscar uma autossuficiência no amor. Algumas pessoas até têm alguma facilidade para amar e doar-se ao outro, mas uma dificuldade enorme para aceitarem ser amadas.


Quando alguém ama e não é amado este amor esgota-se em si mesmo e não produz muitos frutos. Quando, ao contrário, ele é correspondido, um torna-se adubo para o outro e ambos tornam-se árvores frondosas, que abrigam com suas sombras e alimentam com seus frutos. O amor pleno não se encontra sozinho, mas é preciso que sejamos um como Jesus e o Pai são um. O amor não é completo quando é uma via de mão única. Amar e não ser amado ou ser amado e não amar não satisfaz o nosso coração, pois fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Por isso existe o mistério da Santíssima Trindade, pois Deus sendo o próprio Amor, não poderia deixar de amar e ser amado simultaneamente.


Não há santidade, não há meio de chegar ao céu nem de aceitar e receber o amor de Deus quando não nos abrimos a receber o amor dos irmãos. O amor transforma o sofrimento em consolo e o desgaste em satisfação. Quando amamos, nada é pesado e quando nos sentimos amados nosso fardo se torna mais leve. Há mais alegria em dar que em receber, por isso precisamos dar também aos outros a oportunidade de doarem-se e alegrarem-se por servir a um irmão. Não devemos ser egoístas e autossuficientes querendo apenas amar sem sermos amados, pois o amor do outro será para ele também motivo de salvação.


Aluisio Peixoto, consagrado





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