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A criação geme em dores de parto


Publicado no jornal Comunicando em abril de 2011


A Campanha da Fraternidade de 2011 é calcada no texto da carta de São Paulo aos Romanos: “Pois sabemos que a criação geme e sofre como que em dores de parto até o presente dia” (Rm 8, 22). Esse tema, além de muito importante para a sobrevivência da humanidade, nos revela o quanto o homem deixou o pecado avançar dentro dele com distorções que vão se revelando pelo egoísmo, soberba, arrogância, orgulho e desrespeito aos semelhantes e à natureza. Cada vez mais o homem se afasta do plano de Deus.


O progresso, o desenvolvimento, as pesquisas científicas, as cidades, tudo isso é importante para todos nós, desde que realizadas de maneira equilibrada e sustentável, mas não é o que vemos. Esta recente tragédia natural ocorrida no Japão dia 11/03/2011 retrata muito bem que o homem não é o senhor do mundo, como ele parecia pensar até então, pois já considerava como segurança máxima a produção e o controle da energia nuclear. Vale lembrar também o acidente que ocorreu no Golfo do México em 2010, na exploração de petróleo em alto mar, que causou um prejuízo ecológico e econômico em toda aquela região e em áreas próximas, onde se verifica que não há manutenção e a revisão destes procedimentos como deveria haver.


A devastação, a degradação ou a depredação da natureza pelo homem teve o seu início na Primeira Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, muito rica em carvão mineral, principal fonte de energia na época. A partir daí foi intensificado o uso dos combustíveis fósseis na produção de energia para as fábricas, os veículos automotores, caminhões, ônibus, termelétricas, etc. Houve a derrubada das florestas para a construção de cidades, estradas e produção agropecuária. Rios no mundo todo foram poluídos, inclusive nos países desenvolvidos, onde grande parte das florestas originais já não existe. Hoje no mundo todo ainda predominam como as principais fontes de energia para as indústrias e para os veículos a originada dos combustíveis fósseis. Todo esse consumo em escala planetária unido às queimadas contribui para a emissão de gases poluentes para a atmosfera, como é o caso do dióxido de carbono.


O efeito estufa é um fenômeno natural fundamental para a vida na Terra, pois sem ele a temperatura média no planeta seria de aproximadamente -18ºC. A camada de ar que envolve a Terra é composta por 78% nitrogênio, 21% de oxigênio e 1% pelos demais gases. Está incluído nesta parcela mínima o dióxido de carbono (0,035%), o que é suficiente para reter na terra parte da radiação solar, permitindo assim o equilíbrio das temperaturas entre os dias e as noites e a vida na Terra. A outra parte da radiação solar que a Terra não retém volta para o espaço fora de nossa atmosfera. Porém, com a ação predatória do homem, há o aumento artificial da temperatura média e, consequentemente, o aquecimento global. Outras consequências são o derretimento das calotas polares e a inundação e desaparecimento de cidades litorâneas (com o aumento do nível dos oceanos e dos mares), a extinção de plantas e animais devido às mudanças climáticas e locais da Terra que terão estiagens e secas prolongadas enquanto outros terão chuvas prolongadas e maiores índices pluviométricos, provocando o alagamento de cidades inteiras.


Outro gás que é nocivo e também causador do efeito estufa é o metano, que tem uma capacidade de retenção de calor 20 vezes superior à do dióxido de carbono e é, portanto, muito perigoso. As suas principais fontes são a criação do gado (a flatulência de animais), a decomposição do lixo e o cultivo de arroz em terras inundadas. A maior contribuição do Brasil para o aquecimento global são os desmatamentos desenfreados e as queimadas em geral. A nossa matriz energética principal é de origem hidrelétrica (gerada pelo movimento da água).


Com relação à água, 97,5% da água em nosso planeta é salgada, portanto há apenas 2,5% de água doce e deste percentual apenas 0,3% estão disponíveis nos rios e lagos. A distribuição de água no mundo é heterogênea, ou seja, há países com muitos recursos hídricos e outros com quase nenhum, como é o caso dos países da Ásia e da África. Mesmo no Brasil, que está entre os países que têm uma maior disponibilidade de água doce, a distribuição das bacias hidrográficas quanto ao volume é também heterogênea entre as diversas regiões. No entanto, este não é o problema principal, mas o desperdício da água e o seu maus uso com o derramamento de esgoto poluindo os mananciais de água, o lixo das indústrias, o lixo urbano, o lixo contaminado dos hospitais, lançados constantemente nos oceanos, mares, rios, lagos, etc. O homem precisa se conscientizar que sem água nada se produz e a vida tende a desaparecer da face da terra.


O problema do lixo é grave, já que afeta três pontos básicos pelo menos: o respeito com o próximo e a natureza, a educação (de cada um de nós) e o consumismo exagerado. O lixo que é jogado nas ruas entope os bueiros e os lixões produzem o chorume, que contamina o solo e o lençol freático. Geram também o alagamento das ruas e cidades nos temporais, a proliferação de ratos e insetos e a contaminação da água e dos alimentos, provocando muitas doenças, principalmente para a população mais carente. O saneamento básico no Brasil, segundo dados da ONU, ainda é muito precário e inferior ao de vizinhos nossos da América do Sul.


Relembrando algumas sugestões já conhecidas: evitar o consumismo, preservar e conservar os recursos da natureza, usando-os de maneira racional e equilibrada. Reduzir, reciclar e reutilizar a água e os objetos reaproveitáveis. Separar o lixo orgânico do inorgânico, plantar árvores, fazer hortas e jardins no quintal e priorizar a agricultura orgânica. Os governos e empresários devem dar mais atenção e investir nas fontes alternativas de energia, como por exemplo a eólica, a solar, a das marés, a biomassa e a geotérmica.



Leia também o texto "Fraternidade e a Vida no Planeta" sobre a Campanha da Fraternidade 2011


Joselito José da Silva, consagrado professor de geografia



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